sábado, 1 de janeiro de 2011

Quem disse que a Terra era plana?




Encontrando os culpados pelo mito


Se a esfericidade da Terra não era questionada nos círculos eruditos da Idade Média então quem inventou o mito da Terra plana? (ou mais apropriadamente: o mito de que as pessoas acreditavam que a Terra fosse plana).

O historiador J. B. Russel, no livro "Inventing the Flat Earth" ("Inventando a Terra Plana" - 1991), procurou os responsáveis pela propagação do mito e descobriu dois culpados: o francês Antoine-Jean Letronne (1787-1848) e o americano Washington Irving (1783-1859). Letrone, um historiador muito respeitado mas com um grande preconceito religioso, foi responsável por atribuir ao "Topografia Cristã" de Cosmas Indicopleustes uma importância histórica que ele nunca teve, concluindo que todos na Idade Média acreditavam que a Terra era plana. Cosmas por exemplo, foi considerado um tolo ignorante pelo filósofo grego cristão John Philoponus (490-570). Muito antes disso, Santo Agostinho (354-430), doutor da Igreja, no seu livro "A Cidade de Deus" (De Civitate Dei), escreveu: "Apesar de estar supostamente ou cientificamente provado que a Terra tem a forma esférica, disto não decorre que o outro lado do mundo seja desprovido de mares, nem decorre imediatamente que, sendo desprovido de mares, seja habitado."
Pensar como Irving , seria como se daqui a mil anos alguém encontrasse um obscuro trabalho científico questionando a Genética e afirmasse que os cientistas do século XXI não acreditavam na Genética. Segundo Russel, devido ao enorme prestígio e reputação de Letrone, esta interpretação particular dos fatos não foi questionada pelos historiadores posteriores e passou a circular como verdade nos meios intelectuais.

Washington Irving, por outro lado, era antes de nada mais um romancista. Ele é o autor do conto que já virou desenho e filme: "A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça". Como historiador entretanto, costumava levar sua habilidade de escrever ficção para suas biografias, romanceando fatos que nunca aconteceram. Segundo o pesquisador Owen Gingerich, em seu artigo "Astronomy in the Age of Columbus" ("Astronomia no Tempo de Colombo"; Scientific American, novembro de 1992), logo após a revolução americana Irving estava procurando por um herói não inglês para contrapor ao famoso explorador inglês Sebastian Calbot, o primeiro homem a chegar ao Polo Norte, e enxergou em Colombo a pessoa certa.

Na biografia de Cristovão Colombo, "Columbus", publicada em 1828, Irving descreve um episódio real - o Conselho de Salamanca em que Colombo apresenta seu projeto a um grupo de religiosos e leigos - porém "enriquece" a narrativa afirmando que Colombo foi “acusado de heresia” por sustentar que a Terra fosse redonda, o que supostamente seria contrário às Escrituras. É verdade que Colombo sofreu sérias objeções das autoridades católicas presentes, mas a questão nunca foi se a Terra era redonda ou não, e sim o tamanho desta. Colombo supunha que a Terra fosse muito menor do que é na realidade (considerava-a com apenas 20% de seu tamanho real), enquanto seus opositores diziam ser impossível chegar às Índias percorrendo uma distância que consideravam muito maior (os opositores de Colombo estavam certos; se a América não estivesse no meio do caminho de Colombo ele e sua tripulação teriam morrido à míngua de recursos). A narrativa conforme floreada por Irving transformou o debate de Salamanca em um símbolo da luta entre o “campeão da liberdade científica” e o dogmatismo teólogico, e caiu no gosto popular como mentira preferida.

Letrone deu ao mito da “Terra plana” sua base “histórica”, Irving sua carga emocional que embriaga os incautos, e o mito ganhou a força que tem até hoje. Pegando um gancho no embuste, John Draper (1811-1882), um físico violentamente anti-católico, publicou em 1873 o livro "A História do conflito entre a Ciência e a Religião", utilizando o mito da “Terra plana” como exemplo de que as crenças religiosas eram “estúpidas” e “atrasadas” e necessariamente “se opunham ao progresso da ciência”. Através de Draper o mito da “Terra plana” chegou como verdade absoluta até o início do século XX, e só nos anos 20 começou a ser questionado.

É deste modo que são plantadas as mentiras contra a Igreja Católica.



Referências Bibliográficas:

- Projeto Ockham

- Woods, Thomas Jr, “How the Catholic Church Built Western Civilization”; Regury Publishing Inc., Washington, DC, 2005.Wright, Jonathan, “The Jesuits: Missions, “Myths and Histories”, London: Harper Collins, 2004, pp. 18-19.


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Um comentário:

Bruno disse...

Muitas outras ainda virão.